Eu nem sei bem o que fazia lá, já que se divertido não era, não era também necessário. Mas lá estava acomodada bem de longe numa poltrona rasgada de espumas a pular pra fora do couro. Muitos pequenos, todos uniformemente vestidos com camisas de escola pública e desinteresse preguiçoso nos olhos. Creio que a maioria não soubesse (como eu) o propósito de se estar ali, mas estes foram convidados de maneira impositiva, e então não puderam optar por ausentar-se. O clima era de uma feira cultural de ginásio, onde toda a graça e o significado, todo o interessante trabalho desenvolvido pelos pequenos só é enxergado pelos olhos adultos. Eu observando só, aquilo que já me ia dando sono e fazia o pensamento divagar pelas coisas mais desimportantes do dia ou da semana. E eis que chega o momento de dar voz aos pequenos que ali estavam. Um falou, outro também, e uma por sua vez só gaguejou. Um molequinho em especial, baixinho e gordo, de nariz gozadamente suíno e ar óbvio de um vaidoso tomou o microfone. Falou e falou e me comoveu. Palavras tão naturalmente pronunciadas e tão cuidadosamente escolhidas, fizeram uma grande síntese de todas as horas que passei na minha poltrona rasgada. É verdade, é bem provável que não desse valor nenhum ao próprio discurso, como sua volúpia vaidosa denunciava. Falava pelo prazer de ser escutado, e às reações entusiasmadas dos interlocutores seu discurso tomava mais e mais emoção. Vaidade sim, purinha. Mas foi o pecado mais comovente que já presenciei.
sábado, outubro 21, 2006
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