Eu vi a moça passar. Da janela eu vi, ela toda de brigadeiro, andando molemente pela rua molhada. Ela molhada também da chuva, mas não corria não. A moça de brigadeiro ia reluzindo, se requebrando toda dentro do vestido folgado, com toda calma e todo o charme de seus chinelos de dedo, que seus pés faziam saltos agulha. E desfilava na passarela da calçada sobre o lixo com a fineza toda cheia de samba que é própria de moças assim. Não a chamo bela, mas tinha algum tempero não sei de quê que a fazia digna de todos os olhares que atraia. E dava quase pra adivinhar a teimosia quente e sensual que qualquer homem atende só de olhar nos olhos dela, teimosia de quem anda devagarinho na chuva, de chinelas sobre o lixo sem desandar com o rebolado. E embora não tivesse pressa, foi curto meu tempo de espioná-la. O meu pedaço de rua através da janela é curto, diabo de janela pequena. Mas tem o tamanho exato do mínimo que permite ver a poesia dessas moças, doces de chocolate. Depois que ela passou, a rua ia quase se acabando já de saudade, que não é sempre que pés dessa ordem a pisam. Da janela eu só via então no vidro meu reflexo, tão pálido. E ele ficou ali no vidro, me olhando e lamentando não ter a doçura das moças de brigadeiro.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
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